segunda-feira ,24 abril 2017
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Documentário na TV FRANCESA expõe a trajédia de Paracatu, MG

Em 12 de abril passado, quarta-feira, a France Télevions apresentou um documentário realizado pelo jornalista Zinedine Boudaoud sobre a mineração a céu aberto ao lado da zona urbana de Paracatu. Foi um documentário primoroso, buscando os vários aspectos dos impactos socioambientais gerados e as consequências na saúde e na vida das pessoas aqui residentes. Preocupou-se também em mostrar a omissão e o descaso das autoridades públicas, à vista do seu comprometimento com o poder econômico representado pela mineradora.

O documentário teve ampla repercussão na mídia francesa e de lá recebemos alguns recortes de matéria jornalística avaliando o conteúdo do vídeo. Lembramos que não é a primeira vez que a mídia francesa trata deste assunto, que aqui no Brasil é quase silenciado… e quando se fala nele é para destacar os argumentos da mineradora. Há cerca de dois anos tivemos uma matéria da Rádio França Internacional falando dos impactos da mineração aurífera em Paracatu, MG.

A maioria das pessoas terá dificuldade com o áudio em francês, embora seja possível entender o que se passa através das imagens.

Uma matéria publicada no jornal parisiense Le Canard Enchainé, feita pelo jornalista Sorj Chalandon, muito conhecido e respeitado na França, é bem explicativa e didática para entender o filme (embora ele tenha me chamado de José Márcio, e não Márcio José, rsss). Eis aqui a imagem da página do jornal que veiculou a matéria.

Achei que valeria a pena traduzir a matéria e, então, com os meus parcos conhecimentos de francês adquiridos no ginasial feito no Colégio de Viçosa, arrisquei-me traduzi-la. Que me sejam perdoados os erros de tradução, porque é boa a minha intenção!

Pilhérias à mina

O geólogo Márcio José dos Santos vai falar sobre ouro. Atrás dele a mina de Paracatu no Brasil. Cerca de 110 km2, o maior jazimento a céu aberto do mundo. O especialista destaca um fragmentos de rocha. “Estes pequenos pontos vermelho-escuros são manchas de ferro, chumbo, prata e arsênio.” Seu dedo passeia na pedra. “Para extrair um grama de ouro, você deve utilizar 2,5 toneladas. E estes 2500 quilos de rocha contêm 7 quilos de arsênio. “Paracatu não é uma mina de ouro, mas uma mina de arsênio.”

Durante trinta anos, o grupo canadense Kinross Gold Corporation escava a terra na região para extrair o metal precioso. Explosões sacudem a cidade todas as tardes antes do ballet de tratores e caminhões transportando o material detonado para as instalações de beneficiamento de minério.

Cava do ouro

Ali, a pedra é tratada com água, oxigénio e ácido para liberar o ouro, mas também o arsênio fixo na rocha. E se o ouro extraído vai para o Canadá, o arsênio, ele próprio, permanece no Brasil. Ele é depositado, dia após dia, em duas barragens de resíduos tóxicos. O primeiro depósito tem 110 metros de altura, o segundo 70. Eles foram construídos em terra, por razões de economia. E eles alimentam os rios.

O arsênio está no solo, no ar, em todos os lugares. “Veja água da minha propriedade”, disse uma mulher. Ela é fervida. Gradualmente, o líquido torna-se branco como leite e desprende um vapor espesso. Uma mulher tem câncer. “A culpa é sobre o arsênio”, explica ela. Uma menina também desenvolveu a doença. E perdeu seu filho. Pregada a uma cadeira de rodas, ela acusa a mina. Mais adiante, um homem mostra seu rosto coberto de pústulas. Em todos os lugares, as pessoas queixam-se de dores de cabeça, dores musculares, abdômen inchado, problemas urinários, diabetes ou hipertensão.

Sem estudo epidemiológico, o geólogo Dos Santos pagou do seu bolso testes para provar que o ar, água e alimentos estavam contaminados. Resultado claro: todos os 34 moradores testados, incluindo crianças, tinham níveis muito mais elevados de padrões de arsênio. O rio local atingiu uma concentração de veneno cerca de 190 vezes acima do permitido pela legislação brasileira. E o ar, 67 vezes mais do que o normal.

Em resposta aos ataques, a mina tem feito suas próprias amostragens. O caso tem sido trabalhoso. Depois de quatro resultados diferentes – que não foram transmitidos à população – o grupo canadense disse que o índice de contaminação era “sem preocupação”. E a municipalidade permaneceu surda às preocupações. “Basta!” diz o prefeito aos repórteres muito curiosos. Deve ser dito que a mina fornece 1600 empregos diretos na cidade e paga impostos pesados sobre a produção de ouro. Então, vamos embora, não há nada para ver! Os opositores da mina foram intimidados. Alguns até mesmo ameaçados de morte. Os jornais que protestam perdem sua publicidade. E nada se consegue, sem queixas ou ações coletivas. O promotor de Paracatu também se recusou a falar. Sua filha é advogada consultora da empresa de mineração …

Por:professor-marciosantos

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