quarta-feira ,18 outubro 2017
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Dom Pedro I: o herói de dois países

A história do primeiro imperador não termina ao deixar o Brasil. Em Portugal, ele venceria uma guerra civil contra seu irmão tirânico.

Sabe por que a colônia de Portugal é hoje um país só, enquanto o lado espanhol virou Argentina, Paraguai, Chile, Peru, Equador etc.? Em grande parte, é por causa de um cara mulherengo e temperamental que, aos 23 anos de idade, proclamou a independência no meio de uma crise de diarréia. Durante muitos e muitos anos, essa foi a imagem que nós fizemos do primeiro imperador, o homem que garantiu que o Brasil virasse este país de 8,5 milhões de quilômetros quadrados. Dom Pedro I só reinou por dez anos, mas foi o suficiente para segurar nossos territórios – com exceção da Cisplatina, que em 1824 se tornou o Uruguai. Depois, Pedro voltou a Portugal, onde virou um dos estadistas mais avançados da Europa.

Nascido em 1798 no Palácio de Queluz, a casa oficial da família real portuguesa, em Lisboa, ele tinha um nome longo e pomposo: Pedro de Alcântara Francisco Antônio João Carlos Xavier de Paula Miguel Rafael Joaquim José Gonzaga Pascoal Cipriano Serafim de Bragança e Bourbon. Chegou ao Brasil em 1808, quando seu pai, pressionado pelos aliados ingleses e pelo exército da França, fugiu correndo de Portugal e mudou a capital do reino para o Rio de Janeiro. Dom João encheu Pedrinho de professores, mas ele gostava mesmo é de fazer farra na rua com os outros garotos cariocas. Sua maior diversão era dar soco no queixo dos meninos que vinham beijar sua mão. Adorava andar a cavalo, era bom marceneiro e ferreiro e passava horas conversando com os criados. Pedro era uma das poucas pessoas bonitas da família, e tinha um charme que fez dele, aos 18 anos, um dos maiores conquistadores do Rio de Janeiro.⇨

As mulheres do imperador

Em seus 36 anos de vida, nosso primeiro imperador levou para a cama uma quantidade absurda de mulheres. Ninguém sabe exatamente quantas – provavelmente nem ele sabia. O certo é que ele tinha 18 filhos registrados, tidos com duas esposas e cinco amantes. Nem família ele respeitava: além de sair com a dançarina Noemi Thierry, também namorou a irmã dela. Até a irmã de sua amante mais famosa, a condessa de Santos, caiu nas graças de dom Pedro I. Mas a condessa é que entrou para a história como a maior amante do imperador. Seu nome, na verdade, era Domitila de Castro, e ela não tinha nobreza, nem dinheiro, nem beleza. Mesmo assim, era a favorita. O rei chegou ao cúmulo de obrigar sua primeira mulher, a imperatriz Leopoldina, a aceitar a condessa de Santos como dama-de-honra. Os dois amantes só brigaram de vez quando. Quatro anos depois da morte de Leopoldina, em 1826, Pedro se casou com Amélia, uma linda princesa alemã de 17 anos.

⇨ Para tentar fazer o jovem sossegar, arranjaram uma noiva para ele, a princesa Leopoldina Carolina. Ela era o contrário dele: quieta, refinada, culta, com formação científica e amizade com o compositor austríaco Franz Schubert e o poeta alemão Johann W. Goethe. Certa vez, Leopoldina contou numa carta como foi o primeiro jantar do casal: “Conduziu-me ao salão de jantar, puxou a cadeira e, enquanto comíamos, piscou-me o olho e enlaçou a perna dele na minha embaixo da mesa”.

Laços fora, soldados!

A partir de 1815, quando Napoleão foi derrotado, a população de Portugal insistia na volta de dom João VI para Lisboa. Ele enrolou o quanto deu, até que, em 1820, uma revolução na cidade do Porto o obrigou a tomar uma atitude. Ele voltou, mas deixou o filho. Chegando lá, virou uma figura decorativa. Quem mandava mesmo eram os deputados portugueses, e eles queriam tirar poder dos brasileiros. Dom João tentou obrigar Pedro a voltar, mas, depois de pensar muito, ele desobedeceu. Na tarde de 7 de setembro de 1822, ao voltar de uma viagem a São Paulo, ele foi alcançado pelo serviço de correio. As cartas contavam que os deputados portugueses exigiam que ele demitisse seus ministros brasileiros.

De acordo com um dos membros da corte, o padre Belchior, dom Pedro já estava irritado porque estava com disenteria e tinha que descer do cavalo o tempo todo. Ao ler a correspondência, pisoteou as cartas, arrancou do chapéu o laço com as cores portuguesas e teria dito as palavras famosas: “Laços fora, soldados! Viva a independência, a liberdade e a separação do Brasil!”. Em 12 de outubro ele foi oficializado como nosso primeiro imperador.

Os problemas só estavam começando. Além de ter que lutar contra os portugueses que se rebelaram contra o novo imperador, dom Pedro I sentia que os novos deputados brasileiros estavam desconfiados dele e queriam aprovar uma Constituição que tirasse seus poderes. Foi aí que a fama do soberano começou a ficar ruim: ele fechou a Assembléia, convocou juristas amigos para escrever uma Constituição do seu jeito e obrigou todo mundo a aceitá-la. A revolta foi tão grande que quase ninguém percebeu que aquela era uma das legislações mais avançadas do mundo. Ela garantia, por exemplo, a liberdade de cada um expressar a própria crença religiosa, coisa rara na época.

Impopular, maltratado pela imprensa e enfrentando várias revoltas simultâneas sem ainda nem ter um exército, dom Pedro I ainda chocou os brasileiros com sua grande quantidade de amantes (mais detalhes no quadro abaixo). Quando seu pai morreu, em 1826, ele começou a ter dor de cabeça também em Portugal. Tentou ser, ao mesmo tempo, dom Pedro I aqui e dom Pedro IV lá, mas os brasileiros chiaram. Ele então fez um acordo com seu irmão, Miguel, que se casou com a filha de dom Pedro, Maria da Glória. Ele deveria apenas ajudar a sobrinha e esposa, mas Miguel se tornou um rei centralizador e autoritário para os portugueses. Em 1831, dom Pedro I largou o trono para o filho, que tinha apenas 6 anos, voltou para Lisboa e montou um exército para combater o irmão. Em 20 setembro de 1834, ele conseguiu vencer e transformar sua filha em rainha – e dona Maria II iria entrar para a história como a responsável por colocar uma Constituição acima dos reis. Pedro morreu quatro dias depois, aos 36 anos. Seu estilo de governar era respeitadíssimo em toda a Europa.

Fonte:Reinaldo Lopes e Rodrigo Cavalcante

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